GRI-DPA Grupo de Reflexão e Intervenção - Diáspora Portuguesa na Alemanha
GRI-DPAGrupo de Reflexão e Intervenção -Diáspora Portuguesa na Alemanha

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Edição de Setembro de 2020

CONSELHO DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS
REFLEXÕES SOBRE O MOVIMENTO ASSOCIATIVO
(ESTÁ EM CRISE, OU TERÁ SÓ QUE SER REPENSADO?)

 

Como Conselheiro das Comunidades Portuguesas e membro
ativo no associativismo português na Alemanha, não vivo
num vácuo social. As experiências vividas, as lutas que se
travam no terreno e as expetativas criadas por essa mesma
vivência leva a que grupos de pessoas com os mesmos interesses se unam de modo a poderem refletir e apresentar soluções perante o governo português ou alemão (tanto a nível federal como estadual), sobre temas de importância para a comunidade portuguesa a residir na Alemanha.
Por isso, abordo, para reflexão, a temática do Movimento
Associativo na Alemanha. Tema que esteve em debate numa
das Conferências organizadas pelo GRI-DPA e.V. com a participação de algumas dezenas de oradores especialistas sobre esta temática. Vertendo neste texto algumas das reflexões e conclusões do citado evento.

 

Será que o Movimento Associativo na Alemanha
está em crise, ou terá(só) que ser repensado?

 

Depois de termos ouvido e discutido com muitos participantes da 2a. conferência do GRI-DPA e.V. em Hagen, onde participei como Conselheiro das Comunidades e como membro da organização, só me resta dizer que o Movimento Associativo está numa transformação que poderá ser essencial para o seu
futuro. Classifiquemos de “Associativismo Clássico”, aquilo que foi feito entre meados dos anos 60 do sec. XX e 2005, e de “novas formas do Associativismo”, o que vai sendo implementado através das redes sociais e que tem contornos
completamente diferentes do Associativismo Clássico.
Nas décadas de 60 e 70 do século passado, quando o fluxo
migratório para a Alemanha se foi intensificando, houve a necessidade de se formarem Associações Recreativas, Associações Culturais ou Movimentos Sociais, com o fim de promover a identidade cultural e a auto-ajuda.
Em muitos casos, as associações foram o prolongamento da aldeia, da coletividade, ou do espaço de conforto que os
nossos compatriotas deixaram em Portugal. Na Associação
retratava-se a sociedade portuguesa (da aldeia, ou dos
bairros periféricos das cidades) dessa época. Era sítio de
encontro das famílias e dos amigos, as crianças brincavam,
as mulheres conversavam entre si e os homens jogavam às cartas, ouviam o relato de futebol, ou discutiam sobre um
ou outro jogo ou equipa.
O ponto alto de muitas coletividades era a organização de festas e bailes. A vida social das famílias girava à volta das
festas que se organizavam. Foi também, através das Associações que se fizeram campanhas de sensibilização para a situação política que se vivia em Portugal.
Muitos elementos das direções, motivados pela sua vivência e consciência política, criaram nas suas “Associações” cursos de alfabetização, abriram jardins-escolas, trabalharam em conjunto com as diversas organizações que prestavam assistência social (Caritas, AWO, etc.) à comunidade portuguesa.
Não podemos também, deixar de reconhecer o apoio prestado pelas Associações para o fortalecimento do movimento sindical, aqui na Alemanha. No fim da década de 80 ainda se ia à “Associação” para ver televisão (com a abertura dos canais de televisão ao grande público), o que paulatinamente se foi perdendo.
O declínio do associativismo clássico começou na década de 90 do século passado. Foi um começo subtil. Nessa altura ninguém previa que as Associações de referência na Alemanha viessem a fechar as suas portas 25 anos mais tarde.
Motivos para isso não faltam: envelhecimento dos “carolas”;
falta de pessoas motivadas para ocupar o lugar nos corpos
gerentes; não querer “passar o bastão” às novas gerações; alterações político-sociais, que dão preferência ao individualismo e transformam, ou consideram o trabalho comunitário como algo de retrógrado e supérfluo; estar virado para o passado e não acompanhar o presente, para fazer frente aos desafios do futuro e até o facto de ser considerado um círculo fechado.
Mas serão de facto estes os problemas que têm causado o declínio do Movimento Associativo? Questionemos então: 1) Por que motivo é que os Ranchos Folclóricos continuam a ter aceitação por parte dos jovens (e dos menos jovens)? 2) Por que é que algumas Associações continuam a “remar contra a maré” e, mesmo com muitas dificuldades, lá se vão aguentando? 3) Por que motivo é que aparecem novos grupos, nomeadamente, “ASPPA”, “BERLINDA” ou mesmo o “GRI-DPA”?
Os movimentos migratórios atuais enfrentam novos desafios. Os novos emigrantes vêm, na sua grande maioria, com uma boa formação ou como se costuma dizer, com um “canudo debaixo do braço”. No entanto, tal como no passado, também esta geração de emigrantes bem formados tem desafios pela frente: as novas tecnologias; a integração profissional num mercado de trabalho altamente competitivo e exigente; a integração social e cívica, numa sociedade aberta, sim, mas com problemas de longa data, que não foram resolvidos, nem por Portugal, nem pela Alemanha.
Talvez os desafios já não tenham a ver com a necessidade de as pessoas se identificarem como comunidade.
Hoje, as redes sociais são de suma importância para a promoção profissional e pessoal. A aprendizagem da língua do país de acolhimento continua a ser importante, mas muitas vezes é suficiente optar pelo inglês, como língua de trabalho. A rede de amigos é multinacional.
Com os voos low-cost, Portugal ficou mais perto e a saudade é, com uma curta viagem, mais depressa saciada.
No entanto, com o passar do tempo, com a sedentarizacão e a criação do núcleo familiar, os interesses, exigências e aspirações das “novas correntes migratórias” começam a ser
praticamente idênticas às das gerações anteriores: Há um jardim-escola adequado? Há uma escola que ensine português? Há uma comunidade portuguesa por perto? Como
posso viver uma multiculturalidade luso-alemã de forma
intensiva? Partindo do já pressuposto, que, em comparação com o passado, os novos Emigrantes usufruem de um nível de formação escolar, universitário e profissional bem mais elevado do que no passado, que suas interligações e contactos pessoais praticamente não conhecem fronteiras, poderemos perguntar: - Que contributo poderemos esperar então da sua passagem e estadia neste país, para uma modernização dos formatos associativos atuais e futuros, dos objetivos a definir, dos contactos e da cooperação a seguir, da estratégia e do modo de trabalho a implementar, da eficiência coletiva a atingir em prol da Comunidade e do reconhecimento a conseguir por parte da própria Diáspora Portuguesa na Alemanha? E que poderão aprender daí as ainda existentes Associações, para manterem a sua identidade própria e obter uma visível e eficiente melhoria do seu trabalho? Perguntas e desafios, a que só nós poderemos e deveremos responder!

 

Perante todos os considerandos, creio que o Governo português faria bem em acompanhar melhor o Associativismo, pois, as Associações são um pilar da permanência portuguesa na diáspora. O Associativismo e a Portugalidade devem andar de mãos dadas.

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