GRI-DPA Grupo de Reflexão e Intervenção - Diáspora Portuguesa na Alemanha
GRI-DPAGrupo de Reflexão e Intervenção -Diáspora Portuguesa na Alemanha

RESUMO FINAL

Resumo da 2. Conferência do GRI-DPA, realizada na União Portuguesa de Hagen a 26 de Outubro de 2019

RETROSPECTIVA

O Acordo bilateral de fornecimento de mão-de-obra entre Portugal e Alemanha foi celebrado em 1964. Embora nessa altura já existissem portugueses (Gastarbeiter) a trabalhar neste país.

Com base nisso explica-se, por um lado, o elevado número de Associações e Centros então existentes, e por outro lado, a dispersão geográfica de muitas parcelas da Comunidade Portuguesa pelas regiões da Alemanha, onde viviam e trabalhavam.

Para facilitar a compreensão da temática em causa, gostaríamos de classificar de „clássico“ o Associativismo de então.

OS INÍCIOS E O PORQUÊ DO ASSOCIATIVISMO

Protecção da personalidade

Num país estranho, sem falar a língua local, sem poder exercitar a sua própria língua, seguir a sua religiosidade, usos e costumes, dedicados apenas ao trabalho duro, sem contacto com a população local que desconheciam e não procuravam, com tempo de lazer à disponibilidade apenas nos fins de semana, sem notícias assíduas da sua terra e da sua família, acoado pela saudade, por vezes mesmo isolado socialmente, o Emigrante - na grande maioria dos casos, pouco dado à escrita e à leitura - sentia uma necessidade enorme de se auto-proteger, de manter socialmente viva a sua personalidade e auto-estima, de comunicar, enfim de sobreviver, de satisfazer os seus desejos, os seus usos e costumes, de ser ele mesmo.

O elo da Portugalidade

Como „homo socialis“, no desejo de se manter vivo e se proteger, o Emigrante viu-se quase obrigado e procurar seus pares e criar estruturas de sobrevivência.
O elo de ligação que juntou localmente esses „parceiros do destino“ foi a sua portugalidade.

Pressionados pelo instinto da sobrevivência, juntaram-se e decidiram criar as suas Associações e Centros, dando assim resposta mais ou menos eficiente às suas necessidades e desejos prioritários e comuns.

A construção de estruturas de proteção

Podemos dizer que as - clássicas - Associações e Centros, foram as primeiras autênticas „Casas de Portugal“ e dos Portugueses na Alemanha.
Umas dessas estruturas - civis - eram importantíssimos pontos de encontro, para se encontrarem, para dialogar, falar a sua língua, ler os jornais portugueses, ouvir música, ver televisão, rever os amigos, trocar informações sobre o trabalho, e muitos outros aspectos da sua vida, uns com e outros sem família por perto, e também para preencher as suas horas de lazer, com jogos de cartas, matraquilhos, cantares, e, se possível, para matarem a saudade com as suas especialidades de cozinha portuguesa.

Outras estruturas - por exemplo religiosas - serviram para viver e exercer as suas crenças religiosas, pedir conselhos e apoio moral, resolver problemas relacionados com autorizações de residência e de trabalho, sobretudo com a ajuda do Padre e da Caritas, era o „sobreviver por dentro“.

Resumindo: o Associativismo protegia o cidadão português, mantinha o homem religioso, suportava o homem trabalhador e apoiava a pessoa em geral, sobretudo nos seus mais importantes tempos de lazer e de livre decisão.

Para isso foi necessário fazer o levantamento dos interesses pessoais e colectivos, organizar estruturas, encontrar pessoas dedicadas e responsáveis e associar-se, para as manter em funcionamento.

Não convém, porém, esquecer que, se por um lado a pessoa se sentia „preenchida“ nos seus mais íntimos desejos, por outro lado ela mantinha-se isolada dos resto da sociedade onde vivia.
Isso transformou-se num duro e longo impedimento da chamada - e em termos de futuro - e classificada „integração social“ no país de acolhimento.

Talvez seja essa a explicação mais importante para a nossa actual baixa integração social, reduzido exercício da actividade cívica e política na Alemanha.

EVOLUAÇÃO E QUEDA DAS ESTRUTURAS INICIAS E CLÁSSICAS

À medida que aumentavam os tempos de trabalho e de residência dos portugueses na Alemanha, na mesma medida se foram transformando e evoluindo as suas primeiras estruturas associativas. Umas, definiram unilateralmente os seus objectivos e seus fins - desporto, folclore, cultura, alimentação - enquanto outras se foram mantendo como estavam, equilibrando-se.

Ao mesmo tempo que as pessoas evoluíram em vários sentidos, também se desenvolveram as suas sociedades de origem e de acolhimento.

Nasceram novas gerações, os pressupostos pessoais, laborais, linguísticos e técnicos melhoraram de forma acentuada, enquanto muitas das existentes estruturas associativistas pararam simplesmente no tempo. Foi aí que começou lentamente o processo de diluição e de dissolução do associativismo clássico.

Temos que frisar que se trata de um fenómeno horizontal, afectando não só as estruturas dos portugueses, mas também as alemãs, e além disso internacional, pois que praticamente em todo o mundo se encontra esse fenómeno no âmbito do associativismo.

Novas técnicas - telefone, telemóvel, computador, internet, mass-media, transportes - se, por um lado nos trouxeram enormes avanços, deram-nos novos meios para evitar o isolamento, abriram-nos novos caminhos para a comunicação pessoal e comunitária, possibilitaram-nos inclusive um aprofundamento da evolução pessoal - apesar de alguns problemas a essas técnicas interligados - a verdade é que se tornaram quase „desnecessárias“ e ultrapassadas as até então existentes e valiosas estruturas.

Se elas tinham sido criadas com enormes dificuldades de espaço, elevados esforços pessoais e muitas exigências financeiras, a verdade é que foram a base de uma enorme e importantíssima tarefa de „sobrevivência“ das nossas comunidades locais.

O registo ainda existente de muitas dessas estruturas, entretanto semi-mortas, ou literalmente encerradas e até desaparecidas, continua a soar como um grito de sobrevivência, mas para o qual parece não existir remédio.

A SITUAÇÃO ACTUAL

O virar do século e os 50 anos da Emigração
Sabemos hoje que a evolução social, política e tecnológica, sobretudo após a viragem do século, não foi nem é passível de ser travada. Mas sabemos também que a evolução pessoal, intelectual e humana nem sempre acompanha as outras, na medida do possível e necessário.

Na celebração dos 50 anos da Emigração portuguesa para a Alemanha, em Colónia, no ano de 2014, já nos demos conta que estávamos a dar mais valor e importância à análise retrospectiva da nossa história, alimentando o saudosismo e a nostalgia.

Porque dá trabalho, esquecemos ou evitámos a utilização da nossa massa encefálica para, com base nessa retrospectiva, começarmos a elaborar as nossas perspectivas de futuro, também no campo do associativismo.

Por vários motivo - de educação, de mentalidade e de vida - sempre tivemos a tendência para o amadorismo, a improvisação, a experimentação, o „vamos ver se dá“. Evitámos o empenhamento sério, a preparação pessoal e comunitária, a estruturação do projectos e medidas, só viáveis através da formação, da aprendizagem, do estudo e do profissionalismo. Fomos, por assim dizer, quase apanhados de „surpresa“.

Quando demos por isso, as associações, os centros, os clubes, as antigas estruturas em geral, encontravam-se em declínio.
Por falta de pessoas, de „carolas“, de localidades/sedes, de objectivos, de interesses e até de dinheiro.

As antigas necessidades e os antigos desejos, atrás enunciados e sublinhados, podem ser completa e até exaustivamente satisfeitos de outros múltiplos modos, sem ter que recorrer às antigas estruturas.

E, nas que ainda existem, nota-se uma quase luta pela sobrevivência. Uns lutando, quase como os mitológicos Atlantes, para mantê-las de pé e vivas, enquanto outros se comportam como Gladiadores romanos, para que não lhes roubem aquilo que consideram como seu.

E assim desaparecem ou se afastam possíveis novas forças, sobretudo vindas das camadas mais jovens, mais capacitadas pessoal e intelectualmente, desejosas de prosseguir o trabalho de seus antecessores, mas de outras formas, para poderem assumir as rédeas das associações.

AS REAIS MUDANÇAS DE PARADIGMA

Entretanto decorreram já 55 anos desde a assinatura do Acordo Bilateral para fornecimento de mão-de-obra, entre Portugal e a Alemanha.

A Comunidade Portuguesa vai já na sua terceira e quarta geração, sendo composta de gente que absolveu a sua socialização num contexto alemão, domina a língua, conhece a cultura do país de nascimento, sem ter deixado por completo a sua ligação e o contacto com a pátria de seus pais.

A integração da Comunidade avançou, já a partir da segunda e mais intensamente da terceira gerações, vivendo integrada na sociedade alemã. Muitos falam da „perda das gerações futuras“ para Portugal, uma interpretação nacionalista de uma evolução humana, muito natural.

De „Emigrantes“, passamos a „Cidadãos Europeus“. Gozámos de estabilidade jurídica, usufruímos de direitos nacionais e europeus, sobretudo do Direito de voto a vários níveis. Mesmo usando parcamente destes direitos, nós influenciamos assim as políticas locais, estaduais, mas também federais e europeias. Infelizmente ainda damos mais valor ao direito de voto em Portugal, do que na Alemanha.

Temos total e livre circulação no espaço europeu. Novas ondas de portuguesas e portugueses procuram no espaço europeu o seu futuro. A sociedade europeia em geral evoluiu política e numericamente de forma profunda, sofrendo contudo de nacionalismos e populismos, sentindo-se um afastamento, mas no mínimo um esquecimento dos seus valores e princípios, em conjunto definidos e registados.

As novas tecnologias, desenvolvidas e descobertas há pouco mais de 50 anos, dominam hoje o nosso „modus vivendi“, e continuam a avançar, a passos largos, com profundas influências e consequências no nosso comportamento humano, pessoal e social.

O século em que vivemos registou algumas dos mais revolucionários e mais influentes acontecimentos históricos, técnicos e sociais de que temos memória.

Há 50 anos o primeiro ser humano pousou na Lua.
A Internet nasceu em 1969, festejando pois os seus 50 anos de existência.
Foi também há 50 anos que dois computadores com sistemas diferentes conseguiram trocar informações entre si, perdendo logo a conexão.
Foi em 1971 que pela primeira vez se tornou possível trocar informações sob a forma de e-Mail.
Foi em 1974 que dois computadores trocaram pela primeira vez informações entre si, fora dos EUA, um em Oslo e o outro em Londres.
A Internet mundial www foi inventada na Europa em 1991.
Em 1994 surgiu o primeiro Mosaic-Bowser com uma superfície gráfica, manipulada através de um „rato“.
A Internet móvel, com o hoje inseparável i-Phone, surgiu em 2007.
Entretanto, os próprios computadores começam já a desaparecer cada vez mais e a dar lugar à tecnologia „Cloud“, de que fazem parte os nossos maus usados meios de comunicação e de informação virtual, tais como o Facebook, Instagram e similares.

Tudo isso nós acompanhámos, praticamente sem o notarmos, fazendo hoje parte normal da nossa vida actual.

Resumindo: os condicionalismos e motivos atrás referidos, em que assentou o surgimento do Associativismo, não desapareceram por completo, mas foram substancialmente substituídos por outros melhores e mais modernos, tornando-se por isso obsoletos. Das cerca de 103 Associações registadas, talvez apenas metade esteja ainda activa. Poucas novas surgiram. Muitas das ainda activas, encontram-se sem perspectivas seguras de futuro.

PROPOSTAS DO GRI-DPA

O GRI-DPA é um Grupo de Reflexão livre, não mandatado, mas empenhado na visibilidade, valorização e reconhecimento da nossa Comunidade Portuguesa na Alemanha (CPA), em ordem à acção interventiva.

O nosso objectivo é - com base no documento básico: „Memorando sobre a CPA - elaborar e melhorar as propostas necessárias e os caminhos a percorrer, para valorizar e desenvolver os valores pessoais, culturais, políticos, sociais e económicos da Comunidade e dar visibilidade à CPA. Para isso debruçamo-nos sobre três sectores centrais: domínio económicos e empresarial; dinâmicas culturais e de ensino; vida associativa, actividades de carácter social e participação cívica. Um grupo aberto a interessados pelos mesmos ideais e objectivos.

Chegou pois a hora de nos interrogarmos sobre algumas matérias, relacionadas com o Associativismo na Alemanha, objectivo central da nossa 2. Conferência, realizada no dia 26 de Outubro de 2019, na União Portuguesa de Hagen.

Porque fecharam algumas Associações? Porque sobreviveram outras?
Porque continuam muito activas algumas, mas estão paralisadas outras?
Precisamos de Associações? Em que formato?
Vamos continuar isolados, sozinhos, preocupados só connosco mesmos?
No nosso bairro nacional? Ou vamos abrir nossas portas e cooperar com outros grupos?
Atingimos talvez um ponto de viragem no nosso Associativismo?
Estamos a viver de facto tempos de transição? Para onde e por que caminho?
Como conquistar a Juventude para o Associativismo, perguntam alguns?
Que temas escolhemos e lhes apresentamos? Que futuro defendemos?
Por que ideias e ideais nos interessamos e lutamos?
Bastará apenas Futebol, Folclore e Fátima? Que queremos afinal?

Nós pensamos que as Associações têm de se politizar, sem se partidarizarem.

Partidarizar significa, fazer alguém - ou a si mesmo - capaz de compreender a importância do pensamento e da ação política, dar ou adquirir consciência dos deveres e direitos do cidadão.

É isso que queremos? E estamos dispostos a fazê-lo? Temos gente para isso?

Depois desta análise, fruto dos muitos testemunhos recolhidos em documentos e em palestras, e sobretudo através dos relatos e intervenções feitas na 2. Conferência do GRI-DPA sobre esta temática, cabe-nos agora o papel de retirar daí alguns ensinamentos, propostas e conclusões, em ordem à estruturação do nosso Associativismo de amanhã.

Estamos sim em tempos de transição e de renovação. Mudaram-se os tempos, as condições e circunstâncias, as atitudes, os anos de vida e o nível de integração, bem como as gerações e as tecnologias. O problema é horizontal e não nos afecta apenas a nós. Se retirarmos daí as mais evidentes e necessárias conclusões, teremos uma chance para fazer melhor.

IDEIAS E PROPOSTAS PARA UM ASSOCIATIVISMO DO FUTURO

- Procurar, definir e fixar os temas mais prementes da e com a própria Comunidade, sem esquecer os jovens e seus interesses específicos
- Elaborar Estatutos próprios e registar as novas estruturas, credenciando-se na cidade, no Consulado e noutras fontes de apoio
- Criar mais-valia e organizar parcerias, para obter a adesão da Comunidade
- Dinamizar, preparar, formar e, se necessário, profissionalizar os responsáveis das futuras estruturas, de acordo com seus fins
- Decidir e elaborar Projetos de valor para a Comunidade local ou regional, ou perseguindo outros fins superiores, sem esquecer a integração e os temas da Juventude
- Analisar a necessidade de abraçar projetos sobre temas e/ou problemas específicos de um grupo, por exemplo a nível de proteção e acompanhamento social
- Elaborar a viabilidade, funcionamento e financiamento dos objectivos e projectos decididos e definidos
Procurar e requerer apoios e ajudas financeiras, estatais e/ou locais
- Utilizar as novas tecnologias e suas modernas ferramentas, em favor das estruturas e da Comunidade, integrando aí sobretudo os jovens, de forma positiva e pro-activa, em favor, por exemplo, dos mais idosos
- Trabalhar em rede com outras associações e organizações, que perseguem temas e projectos similares
- Analisar exemplos positivos e modernos de Associações, como a Berlinda e a ASPPA, tirando os melhores exemplos de seus modelos
- Cooperar com outras Comunidades lusófonas e alemãs
- Abrir as portas e a possibilidade de filiação também a outras nacionalidades e a outros grupos, bem como elaborar possibilidades de acção e de trabalho em comum
- Criar uma Federação das Associações Portuguesas na Alemanha, órgão representativo de todo o movimento associativo neste país. 

A mudança de paradigma, para melhor, é agora decisão e tarefa nossa.

GRI-DPA

Manuel Campos - Alfredo Stoffel - Toni Horta - Fernando Genro - Maria do Céu Campos

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